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O rally da trégua e o ponto cego fiscal do mercado

  • 1 Ibovespa fechou a 195.129 pontos em 9/abr, 15º recorde do ano, acumulado de +21,10% no ano
  • 2 IPCA projetado no Focus subiu pela quarta semana seguida, de 4,06% para 4,36% em três meses
  • 3 Déficit primário projetado saltou de R$ 29,5 bi para R$ 59,8 bi após o Relatório Bimestral de março
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Rodolfo Oshiro

9 de abril de 2026 · 5 min de leitura
O rally da trégua e o ponto cego fiscal do mercado

Em 9 de abril de 2026, o Ibovespa fechou aos 195.129 pontos. Quinze recordes de fechamento no ano, alta acumulada de 21% desde janeiro. Na mesma sessão, o dólar tocou R$ 5,06 na abertura e o Brentvoltou a ser negociado abaixo de US$ 100 pela primeira vez em mais de um mês. O conflito entre Estados Unidos e Irã havia recuado para uma trégua de duas semanas, e os mercados responderam como se o problema tivesse terminado.

Não terminou. E o que é mais desconfortável: a trégua não tinha tanta relação assim com o que estava pendurado na carteira brasileira.

O que mudou e o que ficou

Na noite de 7 de abril, Trump anunciou a suspensão dos ataques norte-americanos ao Irã por 14 dias. O Estreito de Ormuz, que havia ficado parcialmente bloqueado durante o conflito, voltaria a ter fluxo normal. O Brent, que havia superado US$ 110 o barril e ajudado a empurrar a projeção do IPCA para 4,36% no Boletim Focus de 6 de abril, derreteu 16% em um único pregão.

O mercado leu corretamente o alívio no preço do petróleo. Ler corretamente, porém, não é a mesma coisa que precificar o cenário completo.

O Boletim Focus de 6 de abril trouxe a quarta elevação consecutiva da mediana de IPCA para 2026. Antes do conflito, essa mesma mediana estava abaixo de 4%. O conflito não criou essa trajetória de alta — ele a acelerou. A trégua reduz o premio de risco geopolítico, mas não inverte o que já estava em movimento. O IPCA de março, revelado em 9 de abril, é o primeiro dado concreto que vai testar se a deflação de preços administrados e a estabilidade do câmbio serão suficientes para comenzar a convergência que o mercado precifica.

Antes, durante e depois do conflito

4,06%

IPCA 2026 no Focus antes do conflito

4,36%

IPCA 2026 no Focus pós-trégua

+21,10%

Ibovespa acumulado em 2026

R$ 5,10

Dólar em 9/abr, menor nível desde mai/24

A Selic projetada para o fim de 2026 permaneceu em 12,50%. O mercado agora trabalha com um corte de 0,25 ponto percentual na reunião de 28-29 de abril — a mesma magnitude do corte que frustrou o consenso em março. A ata daquela reunião, publicada em 24 de março, retirou qualquer sinalização sobre os próximos passos. O Copom sequer confirmou que o ciclo de cortes vai continuar.

O fiscal que ninguém incluiu no rali

Na semana anterior à trégua, o Ministério da Fazenda publicou o Relatório Bimestral de Receitas e Despesas. O resultado não recebeu atenção proporcional à sua gravidade.

O déficit primário projetado para o governo central em 2026 saltou de R$ 29,5 bilhões para R$ 59,8 bilhões. As receitas caíram R$ 13,7 bilhões. As despesas cresceram R$ 23,3 bilhões. Descontando o efeito do acordo com o STF sobre precatórios, o governo ainda projeta um superávit de apenas R$ 3,5 bilhões, contra uma meta original de R$ 34,3 bilhões — 0,25% do PIB.

O alívio geopolítico e o que ficou para trás

O que a trégua resolve O que a trégua não toca

✓ Prós

  • + Brent recuou de US$ 110+ para abaixo de US$ 100, aliviando a inflação importada
  • + Câmbio apreciou, reduzindo custos de importação e comprimindo expectativas de IPCA
  • + Taxas longas de renda fixa tendem a comprimir no curtíssimo prazo com o alívio
  • + Ibovespa em máximas históricas melhora humor e reduz prêmio de risco de equity

✗ Contras

  • IPCA projetado no Focus sobe pela quarta semana seguida, de 4,06% para 4,36%
  • Déficit primário explodiu de R$ 29,5 bi para R$ 59,8 bi entre bimestres
  • Copom não sinaliza continuidade do ciclo de cortes após reunião de março
  • Meta fiscal de superávit de R$ 34,3 bi virou projeção de R$ 3,5 bi
  • Trégua tem prazo de duas semanas e vice-presidente dos EUA já ameaçou revertê-la

A deterioração fiscal tem uma implicação direta que o rally ignorou: quanto maior o déficit e mais fraca a trajetória de consolidação, maior o prêmio que os títulos longos precisam pagar para atrair compradores. Esse prêmio não some quando o petróleo recua. Ele pode temporarily ser obscurecido pela euforia geopolítica, mas volta à superfície quando o noticiário esfria.

NTN-Bs longas — títulos indexados à inflação com vencimentos em 2035 ou além — são particularmente expostas a esse dinâmica. Em um cenário de compressão de taxas por alívio geopolítico, quem estiver carregando duration longa vai ver marcação positiva no curto prazo. A reversão, porém, é rápida e desproporcional se o mercado voltar a olhar para o número fiscal e para a ata do Copom.

A bifurcação setorial que revelou a leitura do mercado

O pregão de 8 de abril foi instrutivo sobre o que o mercado estava, de fato, precificando.

Bancos, construtoras e varejistas subiram com força. A lógica é direta: petróleo mais barato significa inflação esperada menor, o que abre espaço para o Copom cortar mais rapidamente, o que barateia o crédito e melhora as condições de demanda. É um fluxo coerente.

Petrobras caiu 6,6% no mesmo dia. A lógica também é direta: receita de petróleo em queda, produção já comprimida no primeiro trimestre (de 948 mil para 880-920 mil barris por dia por causa do conflito no Ormuz) e custo operacional por barril subindo porque menos volume dilui menos custo fixo. A queda do petróleo em cenário de produção reduzida é o pior dos mundos para a margem de E&P no primeiro trimestre.

A interpretação correta exige separar os dois movimentos. O rali de bancos e varejo é uma aposta na desinflação e no corte de juros. A queda de Petrobras é a correção do preço da commodity. Juntos, eles mostram que o mercado está fazendo uma leitura de ciclo doméstico benigno. O problema é que essa leitura depende de duas premissas que ainda não foram confirmadas: que o IPCA vai convergir e que o Copom vai cortar.

O Copom de 28 de abril como próximo ponto de verificação

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O que a ata de março deixou claro

O Copom não confirmou continuidade do ciclo de cortes, e a remoção de sinalização explícita é, por si só, um sinal de cautela

Com a trégua, o mercado ajustou suas expectativas na direção de um corte um pouco mais agressivo em abril. Mas o Copom de 28-29 de abril vai operar com os mesmos dados que já existiam antes da trégua: inflação projetada em alta, fiscal em deterioração, crescimento modesto. Se a ata ou o comunicado indicarem que o ciclo pode ser interrompido, a curva de juros vai se corrigir rapidamente, e os títulos prefixados longos que se valorizaram com o alívio geopolítico vão devolver boa parte desse ganho.

O investidor que aproveitou o rally para alongar a duration em renda fixa prefixada fez uma aposta no alívio geopolítico sustentável. Essa aposta tem prazo curto demais. A trégua é de duas semanas. O fiscal não tem prazo para se resolver.

O que isso significa na prática

O que isso significa para a carteira

  • O alívio geopolítico é real mas temporário: NTN-Bs longas podem se valorizar no curtíssimo prazo, mas ficam expostas a reversão rápida se o mercado voltar a olhar para o fiscal
  • O Copom de 28-29 de abril é o próximo balizador concreto. Se não houver sinalização clara de continuidade do ciclo, a curva de juros vai precificar risco adicional nos prefixados longos
  • A bifurcação setorial do rali (bancos e varejo subindo, petróleo caindo) revela uma aposta do mercado em corte de juros. Se essa premissa não se confirmar, o rali de ciclo doméstico é vulnerável
  • A trégua de duas semanas não garante estabilidade permanente do petróleo. Qualquer reescalada do conflito reverte o alívio cambiário e pressiona novamente o IPCA projetado
  • O fiscal deteriorado não aparece no noticiário do rally, mas continua precificando risco de prêmio nos títulos longos — esse risco não some com euforia geopolítica

O Ibovespa em 195 mil pontos é um número real. A trégua que ajudou a construí-lo também é real. O problema é que o mercado celebrou o alívio como se ele tivesse resolvido a estrutura, quando ele apenas reduziu a intensidade do problema. O fiscal está deteriorado, o IPCA projetado ainda sobe e o Copom não disse que vai continuar cortando.

Compre a euforia. Duplicar a tese sobre ela é outra coisa.

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Aviso importante

Este conteúdo tem caráter exclusivamente educacional e informativo. Não constitui recomendação de investimento nem oferta de compra ou venda de ativos. Não é elaborado por analista de valores mobiliários certificado (CNPI). Investimentos envolvem riscos, inclusive de perda do capital investido. Rentabilidade passada não é garantia de rentabilidade futura.

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